quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nada é divino

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Mas trago na cabeça uma canção do rádio, em que um antigo compositor baiano me dizia "tudo é divino, tudo é maravilhoso". Tenho ouvido muitos discos, conversando com pessoas, caminhado o meu caminho. E não tenho um amigo sequer que ainda acredite nisso. Tudo muda, e com toda a razão. Eu sou apenas um rapaz. Mas sei que tudo é proibido, aliás, eu queria dizer que tudo é permitido.Até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê. Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve, correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe, meu amigo com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente, quero dizer, ao vivo é muito pior.
Por favor não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor. Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar...mate-me logo à tarde, às três que à noite eu tenho compromisso. E não posso faltar por causa de você. Mas sei, sei que nada é divino. Nada, nada é maravilhoso.
Nada, nada é secreto
Nada, nada é misterioso não.

             Belchior.

Todo suicida acredita na vida após a morte

Uma bala perdida encontra alguém perdido, encontra abrigo num corpo que passa por aqui. E estraga tudo. Enterra tudo. Tudo que ele deixou foi uma carta de amor para uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele trazia era uma foto desbotada recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia. Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. E a vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.

terça-feira, 12 de abril de 2011

que infinito é esse mesmo?

Verde musgo ensolarado...mel selva fresca...crepúsculo marítimo? Que verde é esse mesmo? Atlante, egipcio. Estou perdida. Desculpa minha falta de culpa.

sábado, 9 de abril de 2011

um anúncio tranquilizador;

Por favor, mantenha a calma, apesar das ameaças.
Sou só garganta;
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou só um resultado.

sexta-feira, 8 de abril de 2011


Tive vontade de dizer muitas coisas, sobre a beleza e a brutalidade. Mas que poderia dizer-lhe sobre essas coisas que já não soubesse? Tive vontade de explicar que constantemente superestimo e subestimo a raça humana — que raras vezes simplesmente a estimo. Tive vontade de perguntar como uma mesma coisa podia ser tão medonha e tão gloriosa, e ter palavras e histórias tão amaldiçoadas e tão brilhantes. Nenhuma dessas coisas, porém, saiu da minha boca. Tudo que pude fazer foi virar-me e dizer a única verdade que realmente sei. Eu a disse à ela e a digo a você: os seres humanos me assombram!

metamorfose oculta;

E se de repente o chão onde você pisa não for mais o mesmo? Se você sentir seus pés deslizarem a cada passo no que te manteve de pé até hoje?
Como estarão seus olhos quando perceberem que não tem nada igual naqueles outros olhos? Quando cada palavra te confortou a tempos atrás, não, você não previu que elas se tornariam farpas tão doloridas quanto um meio amor. Você não soube ver. E ainda que soubesse que machucariam seus sonhos, não recusaria tão cedo toda aquela promessa.
De repente não é mais possível advinhar o olhar, esperar as palavras, confiar.
De repente tudo mudou. E você não mudou.
De repente tudo sumiu como a fumaça que espairece no ar, como os gritos que eu ouço...
aqueles que amanhã eu não vou saber se são lembranças ou se são ecos. Eu não vou saber de onde vêm.