quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Descivilização

Qualquer dia desses ainda pego um carro e sumo daqui. Vou aonde der a gasolina. Daí em diante ando a pé, até encontrar carona em carro de boi. Suspendo o meu ódio e salto num vale inatingível. Percorrerei a mata e me embrenharei por ela até chegar numa árvore, a mais alta, e tirar um cochilo jóia.
Na chuva que os dias trouxerem,
Esquecerei de contá-los,
Perderei seus nomes e sequência
Chamarei do que quizer :
Dia Vento, Dia de Sono,
Dia Sem Graça,
Dia, Areia e Pó
Os vícios e obrigações,
Responsabilidades, relógios e cordões,
Serão pesadelos que nem lembrarei
Palavras se perderão, outros símbolos virão:
Pedra cortada, o mato achatado , a seta no chão
Na chuva dos dias, meu nome vai fugir
Escorrer pela terra, até que as plantas o suguem
Aí ele será uma presença inaudível em todo lugar
Como algo tão notório e que, por isso, não precisa se falar
Sol sem brilho, luz sem cor
Porque a vida é passageira; e a morte, o trem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O MUNDO DOS FELIZES - Poesia de Dimitri Kozma

Eu queria ser como esses imbecis
Ouvir uma música podre no rádio
E sair por aí balançando o cu

Queria tanto ler as últimas fofocas do jornal
e me interessar por horóscopo 
Para me dizer o que hoje devo eu fazer

Domingo comparecer a missa
agradecendo a fome e a miséria do mundo.
Agradecendo a dor e a podridão.

Como gostaria de acreditar em Deus
E jogar em suas costas todas as minhas responsabilidades
Seria bem mais fácil de viver
Tendo alguém com quem dividir a culpa.

Como eu queria poder pecar e me sentir culpado
Por algo que apenas cabe a mim decidir
E jogar tudo nas costas de um homem de batina
que toca punheta no escuro.

Como adoraria assistir a novela das oito
E comentar alegremente para quem a Helena vai dar
Ou quem o Edu vai comer
Isso aliviaria temporariamente minha existência medíocre
de uma vida completamente vazia

Que emoção eu teria ao ficar entre uma multidão
balançando meu corpo como um epilético
chacoalhando sem nenhum propósito
Somente esvaziando minha mente

Quero seguir, balançar o rabo
dançar ao som da mediocridade
e gostar somente de tudo que conheço


Meu deus seria o deus vivo!
me contentaria em adorá-lo
e ele poderia assim cuidar de mim
como a um filho.

Como gostaria de odiar os de esquerda
que propõem igualdade a todos
como podem propor isso
a trapos imundos?

Rezar todo dia
para um falso profeta
que engana a todos
por mais de 2000 anos


Balançar o cu e rebolar
para todo mundo assistir e me idolatrar
Como se assim eu valesse mais
que um monte de estrume

Queria me interessar pelo último disco
do pagodeiro assassino
ou pela maravilhosa canção
gravada pela modelo e atriz

Adoraria sair berrando
levado pela histeria animalesca
ao ver o galã da TV
fazer compras no shopping center

Tiraria uma foto dele
Bebendo uma Coca-Cola
então eu poderia até gozar
ao cheirar seu arroto

Beijaria e lamberia o chão
por onde o jogador de futebol passasse
Passaria horas a fio a comentar
o maravilhoso gol que ele fez

Adoraria saber das velhas novidades
Minha televisão poderia não ter o dial
afinal, para que eu precisaria mudar de canal?
Teria tudo o que precisasse nessa emissora.

Comentaria alegremente que meu país
tem as melhores novelas do mundo!
e me orgulharia disso realmente
Achando que são eles que pagam nossa programação

Não usaria nomes feios.
(Caralho! Puta que Pariu! Filha de uma Puta!)
Fome, Pobreza, Maldade, Lixo Cultural!
(Buceta! Merda! Vai Tomar no Cu!)
Ignorância, Violência, Promiscuidade, Podridão!

Gostaria de passar os dias comprando
num infindável consumismo
que alegria seria possuir
o último carro do ano

Seria muito mais importante
Mostrando o modelo importado
da máquina imponente
não me importando o pau impotente

Trocar meu voto por pão
Trocar minha alma por dinheiro
Trocar dinheiro por um espaço no céu
Trocar a dignidade por um amanhecer


Acreditaria em gnomos e elfos
viveria num mundo de ilusão
me ajudaria a seguir em frente
Esperando papai noel

Aceitaria como verdade
alguma coisa que um sábio oriental
disse a mais de dez mil anos
Afinal é milenar!

Gostaria de ter um empreguinho de merda
ouviria desaforos e humilhações
e aceitaria sereno ser colocado
vendado perante o paredão

Não contestar nada!
teria mais admiradores
teria uma horda de seguidores
neutros em sua imbecilidade

Buscar o verdadeiro amor
Entre as flores apodrecidas
Apenas encontrar espinhos
e continuar procurando

Remaria a favor da maré
não me preocuparia com nada na minha frente
Afinal o caminho já está pavimentado
Pensar é uma tarefa difícil

Como gostaria de viver assim
Seria muito mais feliz.

DIMITRI KOZMA

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Você era a maior invenção do mundo, até me jogar descarga abaixo... mas sempre tem alguém pra estragar o dia da gente, senão a vida. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Deve haver alguma coisa que ainda te emocione
Uma garota, um bom combate, um gol aos 46
Um vinho tinto, um copo d'água 
A chuva no telhado, um pôr-de-sol
Mãe e filha, lágrimas no sorriso
Um cavalo em disparada
Pijamas...nada pra fazer
Deve haver alguma banda que ainda te emocione
Deve haver uma canção que ainda te emocione
Ao menos o refrão de uma canção, deve haver um que ainda te emocione
Deve haver algum time de futebol que ainda te emocione
Perdendo ou ganhando ele sempre te emociona
Deve haver algum partido político que ainda te emocione
Ou talvez nenhum trololó te emocione
Mas deve haver alguma causa que ainda te emocione
Geralmente são as causas perdidas que mais nos emocionam  
Deve haver em algum lugar alguém que te satisfaça. 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Não faço nada,
Que alguém não tenha feito não,
Não falo nada,
Que alguém não tenha dito então,
Não penso nada,
Nosso futuro é imprevisão,
Alguém me dê a mão,
Nessa calçada,
Vejo que os anos vão chegar,
E cada pegada,
Me mostra um jeito de encontrar,
todo esse nada,
Com medo de se machucar.
Porque tudo isso então?
Se não há nada,
Porque todos temem perder,
Todo esse nada,
Será vontade de viver,
Na mesma casa, na mesa que reparte o pão,
Por isso tudo então.
Quem é você?
Que se esconde, atrás de um nome qualquer,
Não aparece pra mim,
Estende a mão,
Trazendo a chuva,
Tocando o som do trovão,
Será que vamos saber?

domingo, 8 de janeiro de 2012

1: Foi lindo te ver hoje.

2: Eu tava com vergonha.

3: Bobeira minha, eu sei.

4: Mas, desde que saí

5: Eu já tava com um frio na barriga.

6: Eu já sabia que você era gentil, inteligente e engraçado.

7: Mas você é mais ainda do que eu pensava.

8: E você é lindo.

9: E tem o sorriso largo.
  
10: Repito o convite.

11: Aqui nessa cidade

12: Tem sempre uma serra 

13: Pra gente subir.